INTERVENÇÃO EDUCACIONAL EM DIABETES NA ATENÇÃO PRIMÁRIA (Relato de Experiência)

Gracielly de Souza Pantano, Maria Helena Senger

Resumo


CONTEXTUALIZAÇÃO DA PRÁTICA REALIZADA E OBJETIVOS

O cuidado ao paciente com diabetes na atenção primária em saúde precisa ser aperfeiçoado constantemente sendo as práticas interprofissionais e de educação permanente em saúde, como o é o matriciamento, bastante indicadas para essa finalidade (ONOCKO-CAMPOS, 2012). As Políticas Nacionais para Educação em Saúde contemplam a ideia de levar um especialista, no caso, em diabetes, para auxiliar a estratégia de saúde da família sem descaracterizar as ações dessa e com potencial benefícios coletivos (BRASIL, 2009). No que concerne à Educação em Diabetes essa comprovadamente melhora a evolução do paciente, se for sistematizada, em tempo suficiente e por tutores capazes (PIMENTEL JAIMES, 2014). O chamado tratamento não-medicamentoso para o diabetes passa pelo processo de desenvolvimento dos indivíduos e a aplicar intervenções educacionais é ferramenta indispensável (MANTWILL, 2015). O município de Votuporanga tem em 2017 uma população estimada de 92768 pessoas, segundo o IBGE. Em dezembro 2015, últimos dados oficiais do SIAB publicados, o município registrou 2995 casos de diabetes cadastrados, uma prevalência de 3,28%, com base em estimativa populacional para 2015. Esse valor está abaixo da média nacional de 2013, de 6,2% (ISER, 2015). Essa experiência permitiu interação simultânea entre especialista/educador, profissionais de saúde e pacientes com trocas desmistificadoras para todos os sujeitos envolvidos. Tendo ponderado e rompido com a habitual dificuldade de diálogo entre as diversas esferas da atenção em saúde demonstrou potencial prático para o fortalecimento da saúde pública e cuidado a doenças crônicas.

 

O LOCAL E A POPULAÇÃO PARTICIPANTE DO GRUPO

A intervenção foi em uma unidade de saúde da família (USF) de Votuporanga (SP), Brasil selecionada pela secretaria de saúde do município por ser a única equipe sob gestão plena desse órgão. Assinaram o TCLE e aceitaram participar 45 pacientes diabéticos e 19 profissionais de saúde, sendo a pesquisadora a educadora especialista em diabetes que coordenou o processo. Foram obtidos dados sociodemográficos dos pacientes e aplicados questionários que avaliavam conhecimentos, parâmetros psicológicos, atitudes e aderência ao tratamento dos pacientes, a capacidade institucional para o cuidado ao diabetes tipo 2 (DM2), conhecimento médico e percepção dos profissionais de saúde sobre o processo aplicado. Essas ferramentas não serão abordadas nesse relato de experiência sendo objeto de publicações específicas.

AS ETAPAS DESENVOLVIDAS NO GRUPO

Consultas médicas compartilhadas (1-2 horas/encontro). Nesses momentos, médica e enfermeira da USF e médica especialista/pesquisadora analisaram as necessidades do paciente e adaptaram condutas clínicas à sua realidade. Necessidade operacionais também foram contempladas como o recadastramento dos pacientes e sua distribuição em grupos segundo seu risco de agravamento, capacitação para orientações de uso e interpretação dos insumos e prescrições.

Aprimoramento das competências em cuidado ao diabetes tipo 2 simultaneamente dos profissionais de saúde e pacientes (1-3 horas/encontro). Para tanto, como ferramenta de ensino-aprendizagem foram utilizados os Mapas de Conversação Visual em que figuras coloridas representam situações da vida de diabéticos e seus familiares. Os mapas foram doados à unidade ao término da pesquisa.

Após a conclusão da coleta de dados e aplicação das ferramentas de estudo a pesquisadora contemplou o andamento dos trabalhos na unidade por oito semanas, vivenciando o andamento do cuidado ao diabetes e as competências modificadas na ausência do contexto científico-educacional. Os mapas passaram a ser utilizados pelas agentes de saúde.

RECURSOS QUE PERMITIRAM AVALIAR A EXPERIÊNCIA

Com a permissão dos participantes vários momentos da intervenção foram gravados em áudio e vídeo, bem como depoimentos realizados durante e ao final do processo. A análise do conteúdo das gravações e sua interpretação inferencial permitiram obter os resultados dessa experiência.

 

RESULTADOS E CONSIDERAÇÕES FINAIS

O processo de intervenção do estudo embora cumpra papel esperado pela governança em saúde pública e políticas nacionais em saúde é ousado ao assumir o tão desejado encontro entre esferas do cuidado: especialista – educador – profissionais da atenção primária – pacientes. Nas falas dos participantes:

PROFISSIONAIS DE SAÚDE: “... não sabíamos o que era esse tal de autocuidado apoiado e suporte à decisão,...”; “... era muito difícil para um médico da unidade básica convencer o paciente a usar insulina,..., agora tenho certeza que aqui é o melhor lugar para essa etapa acontecer, temos como ver ele quantas vezes for preciso, ensinar, ensinar, explicar, enfim...”; “... ainda acho complicado que os pacientes venham às consultas agendadas, temos uma cultura do encaminhamento e o trabalho das agentes com os mapas poderá ser importante para mostrar a competência do grupo”.

PACIENTES: “... usar insulina pra mim era a morte, o fim. Agora vi que é fácil e aprendi que é melhor e não passo mal...”; “... aceitei participar por que era a doutora de diabetes que estava vindo aqui, mas vi que as meninas ficaram boas mesmo e agora vou continuar.”.

PESQUISADORA/ESPECIALISTA: “... hoje percebi que vocês fazem melhor do que eu fiz; o tempo de vocês é melhor, sabem parar e ouvir os pacientes, sabem falar a língua deles.”; “... agora você está confiante, entusiasmada.”.

Sujeitos diferentes, percepções diferentes, mudanças diferentes!

Alunos do curso de Medicina do internato assistiram passivamente a momentos do processo e demonstraram que lhes havia ficado clara a proposta da Educação Permanente e sua diferença das Capacitações, no entanto, pelo rodízio dos grupos e ausência de TCLE sua participação não foi contabilizada. Incluir a graduação é uma possibilidade para ações futuras.


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Referências


BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE GESTÃO DO TRABALHO E DA EDUCAÇÃO NA SAÚDE. DEPARTAMENTO DE SAÚDE. GESTÃO DA EDUCAÇÃO EM SAÚDE. Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. Brasília (DF): Ministério da Saúde, 2009.

ISER, Betine Pinto Moehlecke; STOPA, Sheila Rizzato; CHUEIRI, Patrícia Sampaio; et al. Prevalência de diabetes autorreferido no Brasil: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde 2013. Epidemiol Serv Saúde, v. 24, n. 2, p. 305–314, 2015.

MANTWILL, Sarah; FIORDELLI, Maddalena; LUDOLPH, Ramona; et al. EMPOWER-support of patient empowerment by an intelligent self-management pathway for patients: study protocol. BMC Medical Informatics and Decision Making, v. 15, n. 1, 2015.

ONOCKO-CAMPOS, Rosana Teresa; CAMPOS, Gastão Wagner Sousa; FERRER, Ana Luiza; et al. Avaliação de estratégias inovadoras na organização da Atenção Primária à Saúde. Rev Saúde Pública, v. 46, n. 1, p. 43–50, 2012.

PIMENTEL JAIMES, Jose; SANHUEZA ALVARADO, Olivia; GUTIÉRREZ VALVERDE, JUANA MERCEDES GALLEGOS CABRIALES, Esther Carlota. Evaluación del efecto a largo plazo de intervenciones educativas para el autocuidado de la diabetes. Cienc Enferm, v. 20, n. 3, p. 59–68, 2014.


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