PRÁTICA DOCENTE: didática não é dom
Resumo
Costuma-se dizer, com um certo encantamento, que “ensinar é um dom”. Ainda que a ideia valorize a figura do professor, ela esconde um risco: o
de atribuir ao talento pessoal o que é, antes, fruto de formação, estudo, reflexão e prática. Ensinar exige intencionalidade pedagógica, pois não
basta dominar o conteúdo. É preciso saber como, quando e por que ensiná-lo.
A didática, nesse sentido, não é um “jeito natural” que alguns têm e outros não. Trata-se de um campo do conhecimento que investiga a
relação entre ensino e aprendizagem, entre professor, estudante e saber. Como nos lembra Libâneo (2011), “a prática docente é um processo de
mediação entre os conteúdos escolares e os alunos”.
Essa mediação precisa ser construída, sustentada e aprimorada continuamente, pois é nela que se revelam as escolhas éticas, políticas e
metodológicas que orientam o trabalho pedagógico.
No ensino superior, muitas vezes, valoriza-se mais a especialização em áreas técnicas do que a formação didáticopedagógica. No entanto,
é justamente ali, em que os saberes se aprofundam e se complexificam, que o compromisso com o ensino deve se intensificar. Conhecer bem um
conteúdo não significa, por si só, saber ensiná-lo.
Mais do que aplicar técnicas ou repetir fórmulas de aula, ensinar implica sensibilidade para lidar com as singularidades de cada grupo, escuta
ativa para compreender os diferentes modos de aprender e criatividade para transformar obstáculos em oportunidades. A didática se faz no
encontro, na observação atenta e na disposição constante para aprender com a experiência.
Reconhecer que ensinar é um trabalho, e não um dom, é o primeiro passo para valorizarmos a docência em sua complexidade. É tempo de
abandonar os discursos romantizados e fortalecer a ideia de que a didática é saber profissional que se aprende, se cultiva e se reinventa.