PRÁTICA DOCENTE: Quando o aluno tem mais medo de errar do que de não aprender.
Resumo
Em muitas salas de aula do ensino superior, tornou-se evidente um fenômeno silencioso, mas profundo: o crescente medo do estudante de errar. Esse receio não se limita ao desempenho acadêmico; aparece no olhar que se desvia quando o professor faz uma pergunta, no silêncio persistente durante as discussões e na recusa em participar de atividades que envolvam algum risco intelectual. Paradoxalmente, muitos alunos preferem não tentar, para não errar, mesmo que isso comprometa sua própria aprendizagem.
As causas são múltiplas. A lógica de julgamento imediato nas redes sociais, a pressão por desempenho e a fragilidade emocional pós-pandemia amplificam esse temor. Contudo, parte dessa cultura também é reforçada por práticas pedagógicas que tratam o erro como fracasso, e não como parte natural do processo formativo. Perrenoud (2000, p. 33) lembra que “ensinar é fazer evoluir o sistema de representações do aluno, ajudando-o a enfrentar os obstáculos que se opõem à compreensão”. Entre esses obstáculos, o erro ocupa lugar central.
Em outro texto, o autor aprofunda essa perspectiva ao afirmar que “aprender não é absorver respostas, mas construir instrumentos para compreender e transformar a realidade” (Perrenoud, 1999, p. 19). Quando o estudante teme errar, deixa de construir esses instrumentos; busca respostas prontas, não caminhos investigativos.
Cabe ao professor, portanto, criar um clima didático que devolva dignidade ao erro. Atividades exploratórias, perguntas abertas, análise de processos e acolhimento das tentativas são sempre boas estratégias. Em cursos que exigem tomada de decisão, como saúde, engenharias e licenciaturas, trabalhar o erro como parte do percurso formativo torna-se ainda mais decisivo.
Quando o erro deixa de ser ameaça e passa a ser possibilidade, o aluno reencontra coragem para aprender e para pensar por conta própria.