PRÁTICA DOCENTE - O que levamos de uma Turma

Autores

  • Me. Camilo Augusto Giamatei Esteluti Centro Universitário de Votuporanga – UNIFEV Autor

Resumo

Ao final de um semestre, costumamos avaliar conteúdos ministrados, atividades realizadas e resultados alcançados. No entanto, há algo na experiência docente que escapa aos relatórios e às planilhas: aquilo que cada turma deixa em nós. Ensinar nunca é um movimento unilateral. Ao longo das aulas, o professor também é atravessado por perguntas inesperadas, silêncios significativos, conflitos, descobertas e modos distintos de olhar para o mundo.
Cada turma possui uma dinâmica própria, uma forma singular de ocupar o espaço da aula e de responder às propostas pedagógicas. Há grupos que desafiam o professor intelectualmente; outros exigem mais escuta, paciência e mediação. Em muitos casos, são justamente as dificuldades do percurso que provocam revisões importantes na prática docente, levando o professor a reconsiderar estratégias, ritmos e até certezas anteriormente consolidadas.
Jorge Larrosa Bondía (2002, p. 21) afirma que “a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca”. A docência, nesse sentido, é também experiência: algo que transforma não apenas os alunos, mas igualmente quem ensina. Nem sempre percebemos isso no cotidiano acelerado do semestre, mas certas turmas permanecem conosco justamente porque modificam nossa maneira de compreender o ensino e a própria relação com o conhecimento.
António Nóvoa (1992) destaca que a formação docente não se constrói apenas por meio de cursos ou técnicas pedagógicas, mas também nas experiências vividas ao longo da trajetória profissional. Cada encontro em sala de aula deixa marcas que, pouco a pouco, passam a compor a identidade do professor.
Talvez seja essa uma das singularidades da docência: raramente conseguimos medir, no instante da aula, o alcance real do que aconteceu ali. Algumas experiências parecem pequenas enquanto acontecem, mas permanecem silenciosamente conosco muito depois do encerramento do semestre. Uma pergunta feita sem pretensão, uma conversa após a aula, um aluno que lentamente encontra sua voz... há acontecimentos  pedagógicos que só ganham sentido com o tempo.
Ensinar também é conviver com aquilo que não se conclui completamente. As turmas seguem seus caminhos, os encontros terminam, mas algo  continua reverberando na memória do professor, modificando sua escuta, sua sensibilidade e até sua maneira de ocupar a sala de aula. Talvez por isso a docência seja menos sobre controlar resultados e mais sobre construir presenças que permanecem, ainda que discretamente, na trajetória dos outros. E na nossa própria.

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Publicado

2026-06-25