PRÁTICA DOCENTE - A Poética da Práxis Docente: um breve apontamento sobre a construção do pensamento e a ação

Autores

  • Dra. Janaina Andréa Cucato Centro Universitário de Votuporanga – UNIFEV Autor

Resumo

O campo disciplinar e o campo profissional não devem ser configurados como espaços de antagonismo ou disputa, antes deve pautar-se pela complementaridade, distanciando-se de dinâmicas de concorrência ou conflito. Compreende-se que durante muito tempo, a educação foi marcada pela separação entre o conhecimento produzido no campo teórico e reflexivo e sua aplicação nos contextos reais de ensino. Entretanto, nos últimos tempos, a docência tem exigido a superação dessa dicotomia, compreendendo que teoria e prática são dimensões importantes inseridas em um mesmo processo formativo. Não se pode apenas atuar como transmissor de conteúdos, mas urge ampliar esta dimensão e atrelá-la a medição do conhecimento, sendo capaz de relacionar referenciais teóricos às necessidades concretas dos estudantes e da realidade social em que estão inseridos.
É salutar lançar mão de teóricos/autores que forneceram as bases epistemológicas, pedagógicas e metodológicas que sustentam muitas das práticas educativas atuais. Contudo, a compreensão dos fenômenos educacionais contemporâneos também demanda diálogo com autores mais recentes, capazes de refletir sobre os desafios impostos pelas transformações tecnológicas, culturais e sociais do século XXI. A atuação docente carece de desenvolver uma postura investigativa, articulando diferentes perspectivas teóricas para compreender a complexidade do processo de ensino e aprendizagem.
O estudo das teorias também adquire sentido pleno quando o aluno consegue reconhecer sua presença e utilidade na realidade prática. Cabe ao docente criar pontes entre o conhecimento acadêmico e as experiências concretas, apresentando situações-problema, estudos de caso, projetos, atividades extensionistas e vivências profissionais que evidenciem como os conceitos estudados podem ser aplicados.
Essa discussão é amplamente abordada no texto “De professores e carpinteiros: encontros e desencontros entre teoria e prática na construção da prática profissional”, no qual a autora Maria Celia Cota (2001) problematiza a visão reducionista que separa o saber teórico do saber prático. Utilizando a metáfora do carpinteiro, o texto demonstra que a prática profissional não consiste na mera execução de técnicas previamente aprendidas. Assim como o artesão precisa interpretar situações específicas, adaptar procedimentos e tomar decisões diante de problemas concretos, o professor também constrói conhecimentos a partir da reflexão sobre sua própria prática.
A proposta da formação prático-reflexiva desenvolvida por Donald Schön (2000), também deve ser observada a medida que compreende o profissional como um sujeito capaz de refletir continuamente sobre sua ação. Para Schön, o conhecimento é constantemente reconstruído na experiência cotidiana. Sua teoria destaca especialmente a reflexão-na-ação, que ocorre durante a própria atividade profissional, quando o educador analisa e ajusta suas estratégias diante dos desafios encontrados. Além disso, enfatiza a reflexão-sobre-a-ação, realizada posteriormente, permitindo a avaliação crítica das experiências vividas e a produção de novos aprendizados.
Para filósofo Heidegger, o conhecimento não surge exclusivamente da elaboração racional e abstrata, mas do envolvimento do sujeito com o mundo. O ser humano aprende por meio da experiência, da interação e da sua condição de pertencer ao mundo. Nessa perspectiva,  conhecer significa atribuir sentidos às experiências vividas, estabelecendo relações entre ação, compreensão e existência.
A práxis pode ser entendida como a unidade entre ação e reflexão, ou seja, uma ação consciente, crítica e transformadora. Diferentemente de uma prática mecânica ou automática, a práxis envolve reflexão sobre a realidade e intervenção intencional nela. Em Paulo Freire (1997), por exemplo, a práxis representa o movimento pelo qual os sujeitos refletem sobre o mundo para transformá-lo. Na docência, isso significa que ensinar não é apenas aplicar técnicas pedagógicas, mas analisar constantemente os resultados, compreender os contextos e promover mudanças que favoreçam a aprendizagem e a emancipação dos estudantes, mas é a reflexão que transforma a experiência em aprendizagem, convertendo a prática em fonte legítima de produção de saberes.
Acredita-se, com isso, que diálogo entre autores clássicos e contemporâneos amplia a capacidade crítica do educador, enquanto a aplicação prática dos conteúdos aproxima o aluno da realidade e fortalece a aprendizagem de forma significativa, fortalecendo inclusive, a função social da profissão.

Downloads

Publicado

2026-10-30